Uma Providência Especial de Richard Yates e os filhos únicos desse mundo
Você me quer?
Você cuida de mim?
Mesmo que eu seja uma pessoa egoísta e ruim?
É assim que começa a música do Cazuza sobre ser um filho único, ele pode falar com propriedade, afinal fora um filho único. Esse que vos escreve também pode falar por si só, sou filho único e com um agravante: de mãe separada.
Você cuida de mim?
Mesmo que eu seja uma pessoa egoísta e ruim?
É assim que começa a música do Cazuza sobre ser um filho único, ele pode falar com propriedade, afinal fora um filho único. Esse que vos escreve também pode falar por si só, sou filho único e com um agravante: de mãe separada.
"Uma Providência Especial" traz à tona essa relação complicada de mãe e filho que se veem sozinhos no mundo e só tem um ao outro para se acalentar. Talvez, pelo fato de a história me ser bastante familiar tenha gostado tanto desse livro.
Essa questão de filhos únicos serem sempre egoístas é velha, né? Eu não me considero egoísta, mas não somos todos um pouco? Lembro de uma frase do Mick Jagger em que ele dizia que todo jovem precisa ser um pouco egoísta. Não posso concordar mais com isso, afinal, é na juventude que estamos construindo quem seremos, nosso futuro, é quando estamos descobrindo o mundo e nos descobrindo. Como não ser um pouco egoísta?
Não acho que os filhos únicos sejam eternos egoístas, acredito que com o tempo vamos aprendendo a lidar melhor com essa questão. Mães de filho único, solteiras, sem ninguém no mundo, como a minha, como a mãe do livro, sem dúvida, colocam uma carga extra nas costas de seus filhos que acaba por atrapalhar seu desenvolvimento como ator de sua própria vida.
É exatamente esse o ponto de todo o livro, mostrar a relação entre mãe e filho, desde a infância do menino até sua vida adulta e como isso afeta sua personalidade mais tarde. Nem o filho, nem a mãe, são pessoas muito admiráveis, são quase sempre (eis aí a característica tão amada dos filhos únicos) egoístas (mas aqui também a mãe é por vezes egoísta).
Yates consegue escrever sua história de forma tão fluida que fica difícil querer largar o livro depois de um certo tempo. A personagem de Alice, a mãe, é construída de tal forma que aos poucos a gente vai entrando dentro da cabeça dela e até tenta entender algumas dar loucuras que faz pra tentar decolar sua carreira de artista plástica que já estava morta mesmo antes de começar. Todas essas escolhas meio erradas que ela faz vão moldando a personalidade do filho Boby ou Prentice, como ele é chamado na maior parte parte do livro pelos colegas do exército em meio à Segunda Guerra Mundial.
Yates consegue escrever sua história de forma tão fluida que fica difícil querer largar o livro depois de um certo tempo. A personagem de Alice, a mãe, é construída de tal forma que aos poucos a gente vai entrando dentro da cabeça dela e até tenta entender algumas dar loucuras que faz pra tentar decolar sua carreira de artista plástica que já estava morta mesmo antes de começar. Todas essas escolhas meio erradas que ela faz vão moldando a personalidade do filho Boby ou Prentice, como ele é chamado na maior parte parte do livro pelos colegas do exército em meio à Segunda Guerra Mundial.
Li uma resenha da Camila von Holdefer em que fala que Yates é pouco emotivo, pouco poético e muito prático, mas que ele consegue de maneira sutil passar beleza por alguns dos trechos do livro. É bem isso mesmo. Esse livro não tem aqueles discursos bonitos, nem frases de efeito que você vai anotar pra reler ao longo da vida. A beleza aqui está nos detalhes, no todo da história.
Tive que ler o último parágrafo do livro umas dez vezes tentando entender se era isso mesmo que tinha acontecido, meio triste, mas correto, o final é meio abrupto e a gente fica querendo saber mais. Muito boa mesmo a leitura, recomendo.
Conheci a obra do Richard Yates pela primeira vez há muito tempo, através de um longínquo post do blog da Tatiana Feltrin. Nesse post ela falava, na verdade, de um filme adaptado de um livro dele, Revolutionary Road, aqui no Brasil o filme veio com título de "Foi Apenas um Sonho". Fui ver o filme e fiquei impressionado com o roteiro (claro que as interpretações do Leonardo Dicaprio e Kate Winslet ajudam), pesquisando mais afundo descobri o tal livro. Corri pra tentar comprá-lo, mas não tinha disponível em nenhuma livraria na época. Acabei comprando outros dois livros do cara, "Um desfile de Páscoa" e "Uma Providência Especial".
Um Desfile de Páscoa eu li há algum tempo, é um pouco esquecível. O livro conta a história de duas irmãs desde a infância conturbada até a vida adulta (qualquer semelhança com "Uma providência especial" não é mera coincidência). É um bom livro, mas os personagens não são muito cativantes, aliás, acho que as obras do Yates parecem sempre tratar de pessoas não muito cativantes ou meio desajustadas.
Finalizo aqui com a música do Cazuza.
Estou na mais completa solidão
Do ser que é amado e não ama
Me ajude a conhecer a verdade
A respeitar meus irmãos
E amar quem me ama

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